quarta-feira, 27 de julho de 2011
Gárgula
Estava à porta da igreja. Estátuas a minha volta davam um tom frio ao lugar. Era maio, o vento de outono tornava o frio não só psicológico. Esperava por um amigo, iríamos a um evento que aconteceria ali perto.
Logo uma chuva fina começou a cair diminuindo ainda mais a sensação térmica. coloquei-me sob uma espécie de laje ao lado de uma das estátuas, a de um anjo.
Fiquei admirado com tanta perfeição dos traços. Eram tão reais, até as asas pareciam ter penas de verdade. Os olhos pareciam me fitar e o hálito do vento parecia sua leve respiração.
Minha companhia demorava e, embora a chuva houvesse parado de cair, eu ainda sentia frio. De repente me vi envolvido por uma espécie de manto. Me senti quente e confortável. Estava nas asas daquele ano de pedra.
Primeiramente, achei que estava só delirando “o frio deve ter congelado meu cérebro” – brinquei – mas aquilo era real, eu estava realmente sendo amparado por aquele anjo.
Nesse embalo me senti mais leve, o frio passava e não me via mais tão sozinho quanto antes. Sorri. Há muito tempo não sorria daquele jeito. Uma lágrima rolou pelo meu rosto, a lágrima de uma doce lembrança.
E repente me vi olhando para aquele monumento com um olhar fixo – como se estivesse verdadeiramente diante de uma entidade sublime.
Estava tão perdido em pensamentos que mal pude perceber meu amigo se aproximando.
“Ei! Está dormindo?”
“Só estava admirando!”
“O que? A igreja? É igual a todas as outras!”
“Não é só a igreja, é a vida que ela faz nascer.”
“Vida? Do que você tá falando?”
“Não vê na sua frente tanta beleza? Olha que traços perfeitos!”
“É uma estátua, fria e sem vida como qualquer outra! Não há nada de mais ai!”
“Veja as asas, até parecem ter penas de verdade.”
“Cinzas? Não me lembro de ter visto anjos com penas cinza.”
“São tão perfeitas que a cor se cria ao olhar.”
“Como você é doido. Acredita em cada coisa... deixa o pessoal saber, vão rir da sua cara. Agora vamos embora que esse frio ta me matando.”
Fiquei parado olhando para aquele anjo, aquela estátua tão perfeita, tão humana e tão celestial. Me virei um segundo para olhar meu amigo:
“Qual frio? Nunca me senti tão bem!”
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