sexta-feira, 22 de julho de 2011

A taça


Ela era muito simples, não tinha nada além das roupas do corpo quando entrou no velho botequim pra pedir uma bebida qualquer que esquentasse seu corpo.
O dono era um homem rude, mas bom coração, não negaria algo tão simples a uma moribunda, entretanto não era conveniente pra seu estabelecimento ter a figura daquela mulher por muito tempo. Pegou o mais simples dos recipientes – uma taça de madeira desgastada pelo tempo – derramou uma bebida e fez com que a mulher fosse embora.
O líquido não apenas esquentou o corpo da mulher, também a fez sentir-se viva novamente. Sentia que devia de alguma forma retribuir aquele que a fizera tão bem, porém ao tentar retornar ao local de trabalho do comerciante foi impedida de entrar. O homem se irritou: “uma caridade de vez em quando tudo bem, mas a senhora acabou de sair daqui, procure outro pra incomodar!”
Era fácil entender, mesmo pra quem fora ofendido a situação era clara, límpida como a alma da mulher que saiu com os olhos ainda fixos no estabelecimento. Ela só queria agradecer. Como não pôde, guardou cuidadosamente a taça – enrolando-a em um dos trapos que vestia, passando assim a ficar exposta ao vento frio – e prometeu pra si que um dia conseguiria devolvê-la e finalmente agradecer.

Talvez não fosse simples assim: sempre que se aproximava do botequim o dono a olhava com reprovação e ela logo se afastava, até mesmo quando melhor vestida.
O tempo foi passando e acena se repetia dia após dia, até que a mulher teve que sair da cidade, sua presença incomodava tanto ao homem que ele deu um jeito de afastá-la definitivamente.
Embora soubesse o motivo de sua expulsão a mulher não conseguia desfazer-se da lembrança do único bem que o comerciante lhe fizera, e nunca desistiu de um dia estar frente a frente com ele novamente.

Longos anos passaram-se até que ela retornasse à sua terra natal. E o seu primeiro ato foi procurar o estabelecimento do homem que ficou por tanto tempo em sua mente.
A notícia não foi a que ela esperava, sentiu até triste: o bar perdeu clientes e, aos poucos, deixou de dar lucro e, por fim levou seu dono a falência.
Apesar de idosa e fraca, teve a decisão de não abandonar sua busca – por onde quer que ela a levasse – nem que fosse somente pra dizer “muito obrigado”.

Caminhando com passos leves pela cidade, ela viu um homem sentado numa calçada com olhos frios e um traço de fome indescritível.
Inicialmente os dois não se reconheceram, mesmo assim a reação dela foi desembrulhar o recipiente e conseguir um pouco de água pra que o desafortunado não morresse de sede.
Quando bebeu todo o conteúdo da taça o homem reconheceu o objeto e começou uma breve história:

“Há alguns anos dei está taça a uma mulher numa situação bem parecida com a minha hoje. Eu nunca a quis de volta, até que alguém me disse que poderia ser o famoso Graal. Cheguei a acreditar que tinha perdido o mais precioso de todos os meus bens, hoje sei que não, pois se esse fosse realmente o cálice da última ceia ele jamais voltaria aboca de uma pessoa como eu.”
“Senhor” – respondeu a outra – “sagrado é o que dá a vida. Se não é esse o Cálice Sagrado, ele jamais existiu! Só queria devolver-lhe e dizer muito obrigado.”

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