segunda-feira, 1 de agosto de 2011
As cartas
O fogo consumiu lentamente cada uma das letras escritas nos suspiros do amor, impedindo qualquer vestígio posterior de lembrança daquele tempo perdido.
Havia acabado. Tudo chegara ao final. E assim como no começo as palavras vieram no papel, faltava coragem para falar – uma carta seria bem sincera.
A última correspondência, no entanto, parecia a que o fogo menos desejava consumir. Suas chamas subiam em pequenas labaredas, mas sem danificar intensamente o papel, como se ele graciosamente estivesse lendo a mensagem...
“Amor, talvez o fim não seja uma dor tão intensa quanto aquela que o antecede – a expectativa, a coragem para dizer que chegou a hora do adeus!
Saiba que a dor que dou agora aos seus olhos já me machucou demais. Por isso tive que chegar a tal ponto, afinal, antes você do que eu! Tudo bem que não gostaríamos que fosse assim, mas o medo de sofrer é tão forte que o melhor momento é sempre o agora – pra não levar a dor adiante – e as melhores palavras, sempre as escritas – as ditas perdem-se no ar... e no tempo.
Aliás, eis o nosso grande inimigo – o tempo! Porém, pra que lembrar de alguém que jamais nos esquece? Deveríamos tê-lo deixado de lado? Por que não o fizemos? Talvez pra usar aquela velha história do “quem sabe algum dia a gente possa se encontrar...” só que no meu futuro não vejo feridas cicatrizadas, não me vejo mais dizendo “eu te adoro!” ou outras juras de amor.
O fogo não continuou lendo lentamente. Acabou se cansando da carta e a consumiu por completo, deixando que o amor fosse o começo e o fim daquela correspondência – exatamente o contrário do que havia sido a relação entre os dois ex-amantes.
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