Quixotesco
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
O Monstro
Eu estava decidido – empunhei minha espada logo após vestir a armadura – eu mataria o Monstro. No fundo, eu sabia que não era a pessoa mais indicada para tal feito, porém, depois de tantos valorosos heróis caírem diante daquele ser assustador, alguém precisava livrar meu povo de suas garras sangrentas.
Talvez eu estivesse sendo só mais um louco que teria a própria vida apagada pelas trevas – que se tornavam cada vez mais densas no mundo em que eu vivia; talvez eu devesse deixar que fosse outro a perder o pescoço em meu lugar, pois mesmo que a minha glória fosse para mãos alheias, eu estaria a salvo do perigo e poderia seguir tranquilo meu anonimato e cair no esquecimento, sem ninguém para lamentar por mim. Contudo, eu estava decidido. Saí de casa e montei em meu cavalo – o fato de não ter família para deixar para trás, motivou-me ainda mais a fixar meu olhar para frente.
Só depois de caminhar um bom trecho para além do bosque que se avizinhava da cidadezinha onde eu residia, percebi que eu não sabia exatamente qual direção seguir. Na verdade, eu só sabia da existência do monstro através de relatos de viajantes que chegavam até a minha porta e afirmavam que era ele o causador de todo o sofrimento do nosso mundo – eu nunca conheci pessoalmente um herói fora abatido pela fera, mesmos tendo certeza de que essas perdas eram reais.
Sozinho, no meio da mata e no escuro, eu deixava as patas de meu alazão guiarem meus pés, enquanto minha mente assumia o papel dos meus olhos que nada enxergavam perante o breu que me circundava. Meus pensamentos correram soltos, descontroladamente, dando origem à imaginação. E isso só piorou meus sentimentos de incapacidade. Eu estava prestes a enfrentar uma besta desconhecida por mim – o medo fez com que eu a idealizasse como um dragão, já que certa vez chegaram aos meus ouvidos boatos de pessoas que foram por ela queimados, mas descartei a hipótese, afinal, não havia espaço nos arredores para que uma criatura descomunal, como um grande lagarto voador, pudesse esconder-se por tanto tempo sem nunca ter sido avistado. Continuei meu devaneio: supus que um ogro pudesse ser minha caça – as canções dos bardos diziam que os valentes guerreiros que enfrentaram o Monstro foram dilacerados e até engolidos por ele. Tentei acreditar, mas logo voltei a apavorar-me – se fosse só um ogro, qualquer cavaleiro valoroso já o teria exterminado. Minha imaginação rodou em círculos até concluir que a criatura era desconhecida, e eu não fazia a mínima ideia de como enfrentá-la.
Enquanto cavalgava e sonhava, pude perceber que o trotar de minha montaria tinha certeza do caminho que deveria seguir. Comprovei a teoria ao perceber, ao longe, uma fresta de luz, para a qual o animal se dirigia. Segurei com mais firmeza o punho de minha espada e firmei o escudo contra meu corpo. Aquele despertar indicou que o perigo estava próximo e que seria impossível desviar dele – não havia caminho de volta para mim!
Assim que sai da sombra das árvores que me cercavam, avistei, numa colina distante, uma gruta. Estava certo de que meus olhos fitavam a morada do Monstro, mas, ao reparar que entre a alcova de vilão e eu havia uma cidade – aparentemente maior do que aquela em que eu morava – dei folga ao punho da espada e ao escudo. Não passaria armado e protegido por um local civilizado, que loucura seria isso!
Cruzei o portal vendo pessoas de todos os tipos, andando para todos os lados, fazendo todas as coisas, ignorando-me em todos os sentidos. Não fiquei colérico com a situação, no entanto, tive de ser reflexivo – por que eles não tinham medo? Viviam mais próximos do perigo do que eu e, ainda assim, suas vidas pareciam não ser afetadas pela presença do Monstro.
Precisava certificar-me se seguia o rumo certo. Busquei a primeira pessoa que demonstrasse alguma autoridade sobre os demais. Não foi uma missão impossível, a maioria dos transeuntes que atravessavam meu caminho pareciam mandar em algo ou em alguém. Dessa forma, acabei escolhendo aleatoriamente um senhor de cabelos grisalhos cujos olhos estavam fixos de ira em uma criança que recebia sua enxurrada de ordens:
– E pare com isso de inventar histórias!
– Boa tarde, senhor!
– Boa tarde, viajante! Desculpe meus modos... essas crianças não têm a cabeça no lugar! Mas, em que posso te ajudar?
– Estou em busca de algo... ou de alguém... não sei ao certo! O fato é que meu povo, há tempos, sofre por causa de um monstro. Eu preciso destruí-lo.
– Um monstro? Do que você está falando? – olhou para mim com a mesma expressão que mirava o menino que acabara de sair de sua vista.
– Um ser terrível... provavelmente feito inteiramente de trevas – eu gesticulava para demonstrar mais clareza –, muito poderoso, e extremamente evasivo... eu jurava que estava no caminho certo para encontrá-lo e aniquilá-lo de uma vez por todas, porém, ao chegar aqui não vi medo, todos pareciam viver suas vidas como se nada os assombrasse. Preciso de sua orientação para saber se meus passos chegaram ao local correto?!
– Você pode descrever tal monstro?
– Infelizmente não! Para mim ele é desconhecido, não tenho noção de como é sua forma.
– Pode dizer, pelo menos, os males que ele causou ao seu povo?
– Isso é fácil! Ele não deixa as pessoas dormirem à noite; todos, de onde eu venho, já acordam com os olhos vidrados e com metas determinadas, como se uma corda invisível os dominasse e controlasse cada movimento de suas vidas; ele fere, principalmente, crianças e jovens apaixonados, mas deixa sua marca para a eternidade... como não conheço sua fisionomia, acredito até que ele seja invisível.
– Conheço a criatura que você procura, não precisa dizer mais nada!
– E o senhor não a teme?
– Eu mesmo já a enfrentei – resmungou após uma breve e pensativa pausa – sobrevivo, mas não sei se saí vitorioso.
– Se o Monstro ainda está vivo, preciso detê-lo. O que devo fazer para que ele nunca mais incomode ninguém?
– Creio que você falhará em sua demanda. No entanto, como percebo seu grande empenho, vou te informar o que deve ser feito: Vê aquela gruta no alto da colina? É lá que a fera habita.
– Eu sabia que meus sentidos não estavam errados!
– Vá até lá. É até bom que você esteja sozinho, chegando lá, abandone seu cavalo, o melhor modo de encarar o seu monstro é frente a frente, sem a interferência ou a ajuda de ninguém! Quando você entrar nas profundezas da montanha, irá deparar-se com duas passagens. Cada uma possui uma escritura, são como instruções. Se você fizer a escolha pelo caminho certo, amanhã mesmo devemos nos ver novamente.
O velho sorriu e, com um gesto, indicou que eu passasse. O encontro deixou-me intrigado, pois parecia uma pessoa sem vida, mesmo que eu pudesse comprovar com meus próprios olhos de que ele era um ser de carne e osso, que respirava e falava normalmente. Saber que ele enfrentara o Monstro aumentou meu medo, não sabia se a morte seria pior do que ficar como ele.
Cavalguei por muitas horas até a gruta. Só atingi sua entrada quando a lua sorria por completo no céu. A noite, a escuridão e o cansaço eram meus únicos companheiros. Temi que as escrituras não fossem tão esclarecedoras quanto afirmou o ancião, porém, eu não poderia voltar – nem estava disposto a isso!
A caverna era muito fechada e sombria, contudo, não completamente escura. Eu conseguia olhar por onde andava. Sabia onde meus pés pisavam e aonde chegariam – o difícil é dizer se isso seria bom ou ruim. Caminhei um bom tempo antes de chegar ao local indicado pelo idoso. Realmente, havia dois caminhos. Seria preciso escolher, mas para facilitar, as escrituras nas entradas dos túneis eram claras: no da direita, lia-se em vermelho “Aqui habita um monstro, se ousar enfrentá-lo chegará ao Cemitério dos Sonhadores!”; no da esquerda, em tinta azul, eu li “Aqui habita um monstro, se ousar enfrentá-lo e vencer, poderá chegar ao seu próprio castelo!”.
Não hesitei. Rumei pelo caminho da esquerda, pois ele era mais bem iluminado – e porque tive medo. O túnel, após a alguns metros de linha reta, fazia uma curva muito fechada à esquerda. Embora eu segurasse com força meus armamentos, todo meu corpo tremia – eu estava prestes a enfrentar o Monstro!
Eu olhava por todos os lados, o medo me dominava e eu tentava resistir – não poderia falhar depois de ter ido tão longe. A cada passo que eu dava para dentro da curva, minha respiração se tornava mais pesada; meu corpo dava sinais de que a batalha poderia ser mortal, no entanto, independente do lado para o qual eu olhasse, não encontrava o inimigo.
Cheguei ao fim do caminho. Estava do lado de fora da gruta, pensando que o túnel fosse apenas uma passagem, em passos lentos dei uma volta e logo cheguei ao mesmo local onde entrei.
A noite já estava se acabando, senti-me frustrado e sem forças. Acabei adormecendo no primeiro abrigo que encontrei entre as rochas. Não sonhei. Sabia o que deveria ser feito no dia seguinte, as cordas invisíveis me levariam ao meu destino quando o sol nascesse.
Voltei à cidade e procurei o velho. Não foi uma tarefa árdua, ele me aguardava na entrada da cidade e, antes que eu pudesse abrir minha boca, ele zombou:
– Eu sabia que você escolheria o caminho errado... todos escolhem!
– Não consigo te entender! Você disse que nos encontraríamos de novo se eu escolhesse o rumo certo!? Onde está o monstro?
– Você já o enfrenta há muito tempo. Chama-se “Realidade”. Se você não a enfrentasse, não estaria aqui e, talvez, ainda teria seu brilho nos olhos, acaso trilhasse a estrada menos trilhada!
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Como o Sol
I
Quando a dona daqueles claros olhos cruzou meu caminho senti meu corpo leve se arrastando até ela. Por um impulso, sem nada falar, lhe dei um beijo. A jovem a moça toda encabulada afastou-me, recuando também o seu corpo.
Desculpei-me, senti, pela primeira vez, que estava errado, mas ela, serena, não ousou abrir a boca para reclamar ou erguer a mão para, como muitas já fizeram, esbofetear minha face.
“Vamos começar de novo. Prazer, Heitor.”
“O que espera que eu diga?”
“Pode começar pelo seu nome, ou falar quem é você...”
“É... Heitor, meu nome é Luiza. Acho que não deve saber mais nada sobre mim, se sentiria constrangido!”
“Não tanto quanto você quando te beijei.”
“Talvez um pouco mais!”
“Só se você fosse uma freira!”
“Quase isso...”
“Noviça?...”
Fez um sinal negativo com a cabeça e se retirou, tentei segui-la, porém a perdi de vista em pouco tempo.
À noite fiquei meditando sobre aquele inusitado encontro. Coisa que não era normal para mim, um grande conquistador. Mas como todo bom “pegador”, decidi não desistir da minha conquista.
II
No dia seguinte, no mesmo horário fui ao local do nosso encontro com a intenção de vê-la. Em vão. Esperei por uma hora e ela não apareceu.
Voltei para minha casa e para minha surpresa deparei-me, na rua onde moro, com Luiza, fui ao seu encontro:
“Tá me procurando?”
“É você quem tem que se encontrar.”
“O que?”
“Até estou a sua procura, mas só caso você queira se encontrar.”
“Tá, mas antes de sair nessa procura posso levar um beijo seu?” Segurei-lhe pelos braços e novamente a beijei. A reação foi a mesma do dia anterior.
III
No terceiro dia, aquela caça já virara obsessão. Não era apenas uma conquista a mais, era um desejo, ou mais que isso, uma paixão.
O encontro nessa data foi ocasional. Eu ia para a escola – tinha só 16 – e tropecei nela.
“Não é todo dia que chove assim no seu colo!” Brinquei.
“Isso me pareceu mais uma queda do que algo vindo do céu.”
“Sabia que esse seu mistério é o que me prende a você?”
“Mistério?”
“Em qual convento você tá?”
“Convento? Não estou em convento algum.”
“Então não foi aceita? Afinal, disse que era uma freira.”
“Talvez você tenha me interpretado mal.”
“Você foi muito clara.”
“Por isso imaginei que fosse entender.”
“Entender o que?”
“Que o que você está fazendo é errado.”
“É possível que você tenha vivido experiências parecidas, com garotos como eu, mas garanto que posso ser diferente!”
“Não posso impedir seus atos, apenas tentar mudá-los.”
Vi nessa frase uma oportunidade para um novo beijo que, como os outros, foi afastado.
Mais uma vez, à noite, não pude dormir por causa de Luiza, por que não conseguia mais resistir? E depois daquelas palavras como poderia ficar em paz, mesmo ela recusando meu beijo?”
Havia algo ali que eu precisava descobrir.
IV
No dia seguinte, mais uma vez por acaso, avistei aqueles lindos olhos. Estava decidido a descobrir o porquê de eles me evitarem e fui ao encontro de sua dona:
“Luiza?”
“Ahn?...Ah é você?” falou com um sorriso nos olhos.
“Parece mais alegre hoje.”
“É um dia especial!”
“Especial?”...
“É. Hoje vou mudar você.”
“Mudar a mim? Impossível!”
“Não, não é!”
Pela quarta vez a segurei e a força dei um beijo em seus lábios, novamente se esquivou.
“Já que quer tanto saber quem sou, te direi agora, mas tenho certeza que se arrependerá depois.”
“Não me arrependo de nada que fiz, faço, ou farei!”
“Heitor... eu já sei sua resposta, só que quero ouvir da sua boca: você tem religião?”
“Claro, sou católico.”
“Acredita em anjos?”
“Por que não?”
“Não faz nem idéia de quem eu seja?”
“Uma noviça, talvez!?”
Assim que dei a resposta vi o corpo de Luiza iluminar-se de um modo que eu não poderia descrever de outra forma se não como místico. Depois de algum tempo de silêncio perguntei:
“Então você é um anjo?”
“O que lhe parece?”
“Então eu cometi um grande pecado... pior. Ainda estou cometendo, me apaixonei por você!”
“Não falei que te mudaria?! Um conquistador se dizendo apaixonado?!...”
“Você deve estar rindo de mim, mas tô falando sério.”
“Eu sei, mas é minha obrigação.”
“Qual sua obrigação?”
“Vim para mudar você. Consegui, no entanto, foi tarde demais, também me apaixonei por você.”
Fui para casa incrédulo. Se o que Luiza falou era verdade – parecia tão impossível ser quanto não ser – eu estaria cometendo um grave pecado e ela também, mas desde quando apaixonar-se é pecado?
Caí num sono profundo, sonhei com Luiza, estava num campo verde. Todo florido, ela estava sentada com uma veste azul meditando. Corri até onde ela estava.
V
“Luiza...meu anjo, o que vamos fazer agora?”
“Honestamente, não sei, a única certeza que tenho é que preciso voltar.”
“Voltar?...Quando?”
“Depois que você acordar se completarão cinco dias que estou aqui... só posso ficar sete, ou seja, descontando hoje, só tenho mais dois dias.”
“Você não pode!”
“Por que não?”
“Porque... porque te amo!”
Uma luz incandescente saiu do corpo de minha amada – como quando revelou quem era. Ao apagar da luz nós não estávamos mais no campo. Me vi deitado em minha cama e ela sentada ao meu lado.
“Por que você falou isso?”
“Falei apenas o que sentia!”
“É uma pena, infelizmente não posso mudar meu destino.”
“No entanto pode aproveitá-lo. Veja, já amanheceu, estamos perdendo muito tempo.”
Troquei de roupa com certa pressa e fui para rua onde encontrei Luiza que já havia descido. Peguei em sua mão e levei a um lugar que eu conhecia.
Naquela manhã de quarta-feira, não fui à escola, entrei num ônibus junto daquela linda criatura e cerca de uma hora e meia depois chegamos ao nosso destino. Ou quase; descemos do ônibus em plena rodovia. Atravessamos, subimos uma colina, passamos por um bosque, caminhamos um pouco e logo chegamos ao lugar que queira mostrar a ela. Um pequeno riacho cristalino formado pelas águas de uma linda cachoeira.
“Não é lindo Luiza? É o lugar que mais gosto de ficar.” Abracei seu corpo, ela não recuou, mas quando tentei beijá-la...
“Não podemos.”
“Eu sei, já refleti muito sobre isso, porém, não consigo controlar os impulsos do meu coração. Eles me movem para o seu lado!”
“Eu também gosto de estar perto de você, mas quem sou... minha posição... isso não é permitido. Mas posso te abraçar se você fechar os olhos.”
Obedeci e abracei a novamente. De repente me senti voando e suas asas estavam próximas da minha mão. Mandou que eu abrisse os olhos:
“É mais bonito aqui de cima!”
“Concordo, mas lá embaixo é menos perigoso.”
“Não confia em mim?”
“Até de olhos fechados.”
VI
Quando cheguei em casa já era noite, tive que dar mil explicações aos meus pais. Depois cai na cama com a sensação de que nunca teria um dia melhor embora ainda me angustiasse com a partida, então acordei decidido a conversar com Luiza, mas onde a encontraria?
Tive a idéia de procurá-la na igreja, mas não cheguei à metade do caminho, Luiza vinha na minha direção.
“Luiza, tive uma idéia: por que você não pede pra ficar aqui?”
“Já pensei nisso. Não tive uma boa notícia.”
“Como assim?”
“Se eu ficar perco minhas asas.”
“Se não ficar pode me perder.”
“Você não entende, minha essência é ser anjo. Se não for assim, eu não existo.”
Ela me beijou pela primeira vez, um beijo molhado em lágrimas... era o fim.
“Te amo, mas se te amar não posso viver, se viver não posso te amar...é um estranho dilema que me leva sempre ao seu coração.”
“O que você fez comigo?”
“O que foi preciso.”
“Ou algo mais.”
“Esquece isso... olha para aquela estrela...toda vez que a vir lembre-se de mim.”
“Aquele é o sol.”
“Amanhã você entenderá.”
Queria contar tudo aquilo para alguém depois que nos despedimos, porém, ninguém acreditaria. Então fui para casa e acabei adormecendo.
VII
Acordei para o ultimo dia com Luiza, não a procurei, abri meus olhos e lá estava ela.
“Luiza, você veio me ver?”
“Vim me despedir.”
“Então...é assim que acaba o amor?”
“Não tive decisão! É assim que uma nova história começa... Hoje, quando nossa estrela estiver se pondo, olhe para ela quero de ver uma ultima vez.”
Abriu suas asas abraçou-me e pela janela foi embora.
No horário combinado fui a janela de meu quarto olhar o sol. O céu estava da cor do seus olhos e nossa estrela avermelhada – como os meus cansados de chorar. Entretanto não era lá que estava Luiza. Olhei para rua, vi um vulto acenando na minha direção. De repente vi um clarão e aconteceu um black-out.
Finalmente entendi o que ela quis dizer com “nossa estrela” quando percebi que ela ofuscava minha vista assim como o sol. Olhei para ele e gritei para todos ouvirem:
“Eu te amo!”
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Penas
Aquela estrela brilhava como nunca sobre minha cabeça, então parei para admirá-la, foi quando a vi caindo, fiz um pedido. Porém, a forma como ele se realizou foi muito inusitada.
Ouvi um estrondo, olhei para o lugar de onde vinha o barulho e vi uma fumaça que subia. Por curiosidade, fui ver o que acontecia.
Uma linda mulher, loira com o cabelo cacheado e uma estranha veste branca – que mais parecia uma camisola – se levantava e batia as mãos sobre si, como se limpasse a roupa.
Mesmo achando a situação estranha, resolvi aproximar-me e perguntar o que ocorrera ali:
“Oi. Ta tudo bem?”
“Claro, já to acostumada.”
“Acostumada?... Ah, já sei: você é sonâmbula?!”
“Sonâmbula? Não. Estou acostumada a cair mesmo.”
“Cair?” Perguntei incrédulo, olhando para os lados, percebendo que não havia janelas nos dois prédios, os quais ladeavam o espaço onde estávamos, que de tão altos matariam, sem demora, uma pessoa caso ela caísse.
“Cair. Por que o espanto?”
Ergui as mãos em direção aos edifícios para lhe mostrar a impossibilidade do que estava dizendo.
“Vejo que não faz a mínima ideia de quem eu seja!”
“Acho que está começando a me entender!”
“Sou um anjo!”
“Não acredito nisso.” Respondi rindo.
“Por que não?”
“Sou adulto, gostava dessa fantasia quando tinha dez anos...junto com Papai Noel, Coelhinho da Páscoa...Estrela cadente ainda vai, mas isso?...”
“Humanos... pobres humanos, não entendem que todos são iguais... foram vocês que criaram esse calendário que hoje seguem. O verdadeiro tempo está dentro de suas cabeças e de seus corações.”
“Detesto teologia!”
“Não sou teólogo, sou anjo, conheço os homens há muito tempo!”
“Já falei que não acredito nisso!”
“Mas eu acredito, porque sou; e o senhor como uma pessoa culta que é deveria respeitar todos os tipos de cultura!”
“Isso não é cultura, é alucinação!”
“Embora eu pense que não haja caso perdido, o seu é difícil. O que quer que eu faça para você acreditar na verdade?”
Apontei para um dos prédios:
“Vamos lá em cima – do modo normal – lá eu te digo.”
Chegando em cima apontei para o chão e para o céu ao mesmo tempo:
“O que entre esses dois pontos não conhecemos?”
“A mão de Deus que nos governa.”
“A resposta que eu esperava de alguém que se auto-intitula ANJO.” Então me prove quem é mostrando-me a mão de Deus. Vou me jogar daqui. Se for quem diz... segure-me.”
Atirei-me em direção ao chão. Aquele ser não me segurou, mas percebi que havia parado e, a minha volta, estava cercado de penas que, a princípio, imaginei ser de ganso.No entanto, de onde apareceriam tantos gansos para encherem cinco andares de penas?
Concluí que, eram do anjo; e em seguida que meu desejo tinha sido realizado: “Saber se minha vida tinha algum valor.” E se aquele anjo não me deixou morrer é porque a resposta era positiva.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
A Rainha Morta
Ela era bela, mas seu destino trágico. Poderia ter muitos homens aos seus pés, porém, só queria um, aliás, já o tinha: o príncipe Pedro. Entretanto, ela, Inês era do reino inimigo, e o único que acreditava no seu amor era Pedro; logo, foi fácil para os conselheiros, após ausência do príncipe, convencer o monarca de que Inês poderia fazer o reino ruir.
O pai do jovem ainda tentou acreditar no amor de sua futura nora, mas a pressão sobre ela era maior, então não teve como impedir: cedeu e mandou a que a moça fosse morta. Após a ordem a lâmina de uma espada levantou-se, fazendo com que a princesa caísse.
Quando Pedro voltou à casa de seu pai e soube da morte de sua amada. Chorou como se o mundo, seu mundo, tivesse acabado. No entanto, não se ateve às lágrimas. Foi ao cemitério, desenterrou o corpo de Inês e o levou de volta ao palácio. Colocou-o no trono e o coroou. A princesa depois de morta tornara-se rainha.
À noite, quando o príncipe foi dormir, se é que realmente conseguiu, sonhou com a bela jovem. Ela estava sobre o trono, sentada, com todos aos seus pés, mas era pálida, fria, sem toque, sem pulso. Seu coração já não batia, no entanto, algumas palavras Pedro a ouviu proferir:
- Meu amor, muito obrigada, não esquecerei o que fez, não esquecerei de suas lágrimas!
- Inês, eu te amo!
- Agora posso pelo menos dizer adeus.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
O velho mal educado
Aquele senhor estava no canto dele quando o observei atentamente pela primeira vez. Não estava parado, muito pelo contrário, a cada segundo parecia ocupado com algo diferente, algo com que, claramente, ele demonstrava não se importar. Era um velho rabugento e mal-humorado, porém ao aproximar-me dele, senti um súbito desejo de forçar um diálogo.
Apesar de toda a ignorância daquele velho homem de longas barbas brancas – algo entre um mendigo e um sábio – ele não se absteve da conversa, não parecia importar com todos os meus questionamentos, apenas não os respondia da maneira que eu esperava. No entanto, à medida que a conversa ia fluindo, nos entendíamos melhor. Nossas primeiras palavras foram vagas, mas necessárias para um contato inicial:
– Boa noite, meu nome é Adão.
– E?...
– Desculpa te incomodar... já te observo há alguns dias, sempre no mesmo lugar... fiquei curioso, mas uma vez peço desculpas...
– Sei!...
– Te conhecer virou uma obsessão! Não pense mal de mim, se usei as palavras erradas, apenas permita que eu possa conversar um pouco com você!
– Tá!
Eu sei que tudo o que eu disse ficou muito parecido com o discurso de alguns religiosos inconvenientes que tem prazer em invadir a privacidade alheia, contudo, o velho senhor não me ignorou... apesar de ter sido bem rude – algumas vezes cheguei a escutá-lo dizer “tanto faz” de forma tão categórica que aquela frase tão curta parecia a resposta para todas as perguntas do universo. Entretanto, naquele momento eu não me importava com as teorias bizarras sobre as dúvidas humanas, só queria conhecer mais a fundo aquele homem. Eu nunca soube o porquê de tanta inquietação e curiosidade, mas não me envergonhava de tê-los!
Embora suas falas fossem sempre grosseiras, o modo de agir era suave. Todos os seus movimentos se demonstravam leves e simples, como se o mundo se curvasse à vontade dele e pudesse esperar que ele completasse todos os seus gestos. Conversamos bastante naquele primeiro encontro, apesar de eu ter certeza de que falei muito mais do que ele – isso era um costume meu, então nem percebi!
Em outras ocasiões, sempre por acaso, acabava me deparando com aquele senhor... eram tantos os momentos que eu chegava a sentir raiva daquele velho desmiolado, contudo, sempre acaba entendendo seus motivos. Eram tantos nossos encontros felizes e nossas brigas, que logo já me considerei um amigo. Amigos que em todos os encontros repetiam as mesmas bobas e velhas piadas, ainda assim, não nos afastávamos, nem nos aborrecíamos.
Lembro claramente de uma vez em que nos vimos e eu comecei a reclamar de como andava a minha vida: falei do caso de a minha esposa ter me traído com um de meus grandes amigos; contei sobre minha briga e sobre o rompimento irreversível com meu irmão; confidenciei-lhe que estava me afastando dos meus filhos e o quanto isso me entristecia...
Nesse dia ele olhou calmamente dentro dos meus olhos e, como se declamasse a mais bela de todas as poesias, pronunciou simplesmente: “Foda-se!” – Acho que só então eu percebi que o velho rabugento que eu sempre perseguia era o Tempo!
quinta-feira, 5 de junho de 2014
O rei da glória
Final de campeonato. 44 do segundo tempo. O juiz apita marcando falta. Foi fora da área, mas ainda era uma oportunidade sem igual. O meia-atacante Elias era o principal batedor da seleção – e ele se tornou perito em cobranças, particularmente, no local onde o lance aconteceu... durante os treinos não errou nem uma bola parada na mesma situação.
Quando pegou a bola com as mãos e se direcionou à marca feita pelo árbitro, toda a torcida se levantou na expectativa, como se o gol já tivesse acontecido. Verdade seja dita: até ali o jogador não tinha feito uma boa partida e nem ao menos fez tudo o que se esperava dele no campeonato. Porém, ele era a promessa da Copa – marcar o gol da vitória no final apagaria tudo: ele voltaria ao centro dos holofotes e seria consagrado como o melhor em campo, ou até mesmo o melhor da competição.
A caminhada até o local da cobrança não era longa, mesmo assim vários flashes passaram por sua cabeça: a primeira partida pelo seu clube de coração; aquele jogo em que o seu time goleou e só ele marcou três; até mesmo a contusão que o tirou de uma final e fez com que ele visse, da arquibancada, sua equipe ser vice. Contudo, sabia que naquela hora nenhuma dessas lembranças importava. Só queria balançar a rede, ser aclamado como grande e glorioso jogador. Então estava de frente para a chance que a sorte lhe oferecia.
A barreira estava arrumada. Assim que o juiz autorizou a cobrança ele ajeitou-se como sempre fazia e, pelos seus passos, o goleiro já pressentia a derrota iminente. Chutou. A bola girou leve no ar; encobriu a barreira, não ia no ângulo, mas o goleiro dificilmente alcançaria. E quando a bola estava a centímetros do gol e ele, já levantava as mãos para comemorar, um colega de equipe, em posição legal, adiantou-se e pôs a cabeça na bola, só para garantir que ela realmente entraria.
– GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL! – explodiu a torcida em uníssono.
Todos gritavam o nome do cabeceador, o homem do gol, herói da partida e da nação. O batedor correu para abraçá-lo, apesar da amargura. Afinal, sabia que o outro havia lhe roubado a glória, mas não o título de campeão.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
O último adeus
Quando me falaram eu não acreditei, como poderia Rute, minha melhor amiga estar à beira da morte, se há duas semanas ela pulava de alegria contando para mim seus planos para o futuro? Rafael, com quem ela namorava a mais de quatro anos a pedira em casamento, finalmente! Recebera, uma semana antes, uma promoção com um enorme aumento de salário no emprego que conseguira há pouco... Nunca me passou pela cabeça que ela entraria em coma por excesso de medicamentos! Não acredito que ela tentou o suicídio!
Fui até seu leito, sentei ao seu lado, peguei-lhe na mão, onde dei um beijo amigável que a agradou muito - foi, pelo menos, o que pareceu. Ela não podia falar, mas me concedeu um sorriso inesquecível! - Porém, por mais que a situação fosse delicada e eu tivesse sentido a paz no rosto dela, não podia deixar de falar o que eu pensei, e também não esqueci de perguntar o porquê daquela loucura, antes de terminar minha visita.
No fundo eu não queria saber o motivo dela ter tentado se matar - tentado, não, na verdade, ela conseguiu, pois dentro de instantes ela fecharia os olhos para sempre -, contudo, não podia deixar ela morrer enquanto aquela dúvida crescia em mim. Se deixasse, poderia fazer nascer no meu coração um ódio pela pessoa de quem eu mais gostava, e eu viveria amargurado pelo resto da vida com esse sentimento tão ruim dentro de mim!
Desabafei sobre a raiva que ela me fez sentir por ter agido de maneira tão egoísta, mas percebi que a deixei ainda mais triste, então, a contragosto, resolvi desculpar-me. Confessei a ela todo meu conflito interior - pensei que me sentiria mais aliviado se o fizesse. Imaginarei que, dessa forma, se dissipariam as mágoas, eu dormiria em paz, e voltaria a ser feliz, com uma amizade a menos.
Infelizmente, eu estava muito errado. Quando comecei a falar, a expressão de Rute ficou triste, seus olhos ficaram marejados, e ela começou a me olhar com uma expressão irreconhecível. Foi então que entendi, e falei por ela o que os seus lábios, quase frios não podiam pronunciar:
- Você me amava? É esse o problema? Ficou com medo de machucar seu noivo e resolveu ferir a si mesma? - Seus olhos, que pareciam confirmar, me davam uma sensação de que ela não queria mudar o que aconteceu; de que deveríamos - eu e ela - aceitar a decisão que tomou sozinha. Mas eu ainda tinha meus medos e continuei a enfrentá-la - Mas... e o Rafael, ele a ama, o você também o amava. Isso não fará bem a ninguém!
Quando parei de falar, percebi, que mesmo se ela não tivesse feito o que fez, não poderíamos ter nos amado, pois nenhum dos dois iria trair o Rafael. Queria dizer para ela que se ela quisesse viver, mesmo que fosse longe de mim, teria me feito mais feliz, no entanto as palavras não saíram. Abaixei-me para beijá-la, como um casal se despedindo, mas parei, pois ela parecia sussurrar "não"!
Não sei se o não era para evitar o beijo ou a despedida, sei que foi ele quem me matou! Não em corpo, mas em alma, pois esta estava destinada a permanecer ao lado de Rute para sempre!
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