sexta-feira, 1 de julho de 2011

Pimenta nos olhos


Pra muitos – a maioria na verdade – era só mais um dia de trabalho, um dos favoritos, diga-se de passagem, afinal quem não gosta do dia do recebimento? Para mim, porém, era um momento apreensivo, enquanto todos esperavam ansiosamente o fim do expediente para correr aos bancos e sacar seus gordos salários, eu torcia para que as horas não andassem.
Nossa profissão está na lista das mais desejadas pela população – assim como uma das mais criticadas – políticos. Todos ganhávamos ótima remuneração e em troca nossa dever era servir ao povo. Contudo, não era bem isso o que acontecia e, pra ser sincero, até ríamos da situação.
Aconteceu, no entanto, que em um dia comum eu passei por um arrependimento que me fez agir contra os meus costumes. Cheguei a ficar com os olhos marejados por causa da cena que presenciei – logo eu que via situações tristes há muito tempo, tinha até perdido as contas de quantos mandatos assumi:

Um casal trazia consigo seus cinco filhos – o mais velho, de 15 anos, não podia andar e nem uma cadeira de rodas descente ele possuía; o segundo garoto parecia estranho, descobri posteriormente que era altista; a menina, filha do meio, tinha a pele escamada e cheia de feridas – era lepra, uma doença que hoje amenizam chamando de hanseníase; os dois mais novos, gêmeos, pelo – como imaginei – conseguiram escapar da maldição da família, pareciam saudáveis.
Quando o grupo adentrou em meu gabinete pensei com hostilidade: “só mais alguns pedintes que garantem poucos votos...”. Mesmo assim, mantive minha postura e os recebi com muita educação, o que influenciou no fato de eu me comover:
– Doutô, nós viemô aqui só pra ‘gradicê da ajuda que ocê deu pro nosso povoado. Nós até trazemo o mínimo mais velho só pra ti ver pessoalmente, ele ta todo filiz, por causi di que pela primeira vez foi pra iscola. Imagina só douto, quinze ano e é a primeira veiz.

Comecei a vasculhar em minha mente para compreender o que o casal falava – com certo custo lembrei-me de ter pegado uma ideia do governo, desviado um dinheiro e usar a propaganda para dizer que a analfabeta que mandei para as vilazinhas era uma excelente professora que visitaria todas as casas pra buscar os alunos que não eram matriculados. Fiz um sinal de reconhecimento com a cabeça e o marido prosseguiu falando:

– É por isso, douto, que nós vai votá no sinhô di novu nessa eleição. Homi bão igual ocê num tem não. Ta’qui nosso outro mínimo pra prova, ele gosta demais do sinhô, tadinho, fica sozinho dentro di casa o dia todo, num fala nada, mas quando a gente falô que vinha aqui... Ele correu pra si arrumá, tava doidin pra gradicê pelas bola den’di leite que ocê mando no dia das criança. Ele fica encantado quando joga aquilo na parede e adispois o trem volta na direção deli.

O tal menino abria um sorriso, enquanto eu, em silêncio, lembrava que o dinheiro que me mandaram para a data poderia cobrir uma festa de fechar o quarteirão, além de presentes muito melhores, mas achei grandioso demais e lembrei que a piscina que eu tentava construir na minha casa ainda não estava pronta. Dei um sorriso amarelado, então a menina continuou:

– Eu também vim gradicê pessoalmente pela pumadinha que mi mando, as veiz inté parece que meus machucado coça mais, mas a moça da farmacinha disse que faz parte da cura, inté expricô que as manchona vermeia que se feiz dispois de passar a pumada serve pra deixa a pele tudo igual.
Imaginei que o “tudo igual” teria como base as escaras horrendas que apareciam. Contudo, não tive tempo de abrir a boca, pois a esposa voltara a falar – provavelmente saíram dela as frases que mais me chocaram, não sei se pela ignorância dela, ou pela minha.
A gente veio dizer “obrigado” também, doutô, por ter cancelado a distribuição de preservativo e daqueles cumprimidinho antigravidez... Por causa de que que a gente já tava achando que tanto pobrema na famia era castigo de Deus, mas ai, olha só procê vê, imbuchei di novu, e de dois ao mesmo tempo, e dá uma oiada como os mínimo são perfeitinho! Graças ao senhor, doutô, que deu otra chance de nós tentá. Muito obrigado!

A situação poderia ter me paralisado, no entanto eu soube me virar: de um jeito discreto perguntei o nome do lugar de onde vinham. Tirei um trocado do bolso recomendando que comprassem uma cesta básica. Despedi-me sem apertos de mão – sabe-se lá que doenças eu poderia pegar!
Depois desse dia quis encontrar uma maneira de ajudar de verdade a comunidade onde vivia aquela família, mas calculei algumas impossibilidades caso usasse somente o dinheiro do governo, então me veio à mente a ideia de uma fraude – já havia organizado tantas, uma a mais não faria diferença!
Porém, como sabia que uns políticos certinhos desconfiavam de mim, resolvi inverter a ordem lógica de toda falcatrua: usando meus conhecimentos e alguns contatos, invadi sistemas bancários e desviei menos de um terço do salário de meus companheiros de profissão o plano era construir um hospital e uma escola, elementos banais em minha opinião, assim como na de meus companheiros, por isso temia que o dia chegasse ao fim, todos tomariam um susto, eu provavelmente seria descoberto e, nunca mais, poderia me eleger. Contudo, nada me tira da cabeça que fiz a coisa certa!       

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