quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O homem que nunca amou


Não era bem uma doença que veio com o nascimento, o que aquele homem tinha estava mais para um estranhamento que ele não queria ter no coração.
Ele sorria sempre - não que a tristeza nunca tenha lhe invadido a alma, nem que a vida tenha sido um mar de rosas, e sim porque, simplesmente, não sabia chorar.
Em sua vida tal situação se tornara algo natural, já que comparada com outras manias e incapacidades, a de não chorar era a menor e menos estranha - o defeito menos escandaloso -, pois aquele homem nunca conheceu a palavra amor.
É claro que o sexo e o calor dos corpos faziam parte de sua vida. teve muitas namoradas, diversas amantes e até uma relação estranha com outro homem, entretanto, em momento algum seu peito palpitou, ou seus olhos brilharam, ou seu espírito sentiu-se enciumado.

Nasceu sozinho. Não era capaz de responder se um dia realmente teve pais, se existia uma família da qual se perdeu. Sabia apenas que estava vivo - se é que o que tinha pudesse ser chamado de vida.
Quando criança soube da existência de uma escola ao ser escorraçado da porta de uma por estar sujo. E, embora sentisse que algo estava errado, não parava de sorrir, afinal ninguém lhe ensinara a chorar.
Mais crescido trabalhava de sol a sol pra ter o que comer, onde dormir, apesar de não encontrar a utilidade para este último - provavelmente nunca sonhou. Na verdade, só gostava de dormir pra não ver o céu à noite - nunca quis nada de lá... nem mesmo as estrelas eram capazes de atraí-lo!
Sua vida era comum. Não tinha do que reclamar. Não possuía amigos que o criticassem. Não tinha um animal que cobrasse carinho. Não tinha um filho que pedisse brinquedos. Não tinha esposa que lhe provocasse amor.

É possível que nunca tenha se dado conta da existência da palavra amor. Só acreditava no que era concreto - mesmo andando perto de tantos templos, igrejas, mesquitas, sinagogas... não imaginava um deus criador da vida, um ente maior com o qual se apegar nas horas de aflição, pra agradecer no momento da vitória.
Vivia em silêncio, sozinho. Sem cultivar ao menos inimigos - não era capaz de ter opiniões, seu mundo, seu modo de vida, não permitiriam a geração de uma emoção sequer!
Quando morreu o sol brilhava forte - talvez não pra ele que não via possibilidade do aquecimento de seu ser, de sua alma, ou de sua vida. Uma vida tão inútil que, segundo alguns, não merecia nenhuma dessas linhas.
Porém, foi desafiador - sem ter necessidade de viver, viveu; sem ter vontade de amar, morreu antes mesmo de nascer. Se hoje estivesse vivo talvez questionasse se alguém conseguiria viver com ele. Mas não se permitiria questionar - isso seria ter amor ao que ele fez.

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