terça-feira, 6 de setembro de 2011
Ana
Já era tarde – pelo menos para mim – quinze para as cinco da tarde, quando minha patroa mandou que eu fosse à zona Sul – trabalhava no Centro. Reclamei, afinal, faltavam apenas alguns minutos para acabar meu expediente e não podia perder mais um dia de aula por conta do serviço.
Embora não fosse algo urgente, ela insistiu (para que eu não deixasse de ir). Como acontecia sempre quando eu me atrasava, consentiu que eu fosse embora direto da zona Sul para casa – morava na Norte. É como se ela já soubesse que algo de importante me aconteceria naquela “viagem”.
Não estava muito bem neste dia, ou melhor, estava péssimo durante todo o mês. Tudo parecia conspirar contra mim, sentia-me abandonado, quando não um estorvo para todos que me rodeavam. “Onde me queriam, não era meu desejo ficar”. Minha família, no dia seguinte, se separaria de mim. Diziam que eu agüentaria. “Era maduro!” – eu tinha apenas 16 anos! – Já estava com as lágrimas abrindo a porta dos meus olhos.
Quando recebi tal ordem, senti uma gota escorrer pelo meu rosto, sem que minha patroa visse. Saindo mais tarde do trabalho, teria de ir direto para a escola. Não mais veria minha família até o final do ano.
Ao sair dos “domínios” do escritório de engenharia, onde eu trabalhava, em direção à estação de metrô mais próxima, Santa Cecília, não pude mais conter o choro preso em mim por tanto tempo – na idade que tinha, nunca cheguei a chorar de verdade – a cada passo – acelerado como sempre – que dava, caíam, no mínimo, cinco gotas no chão. Cheguei à estação e aguardei a vinda do meu transporte por cinco minutos. O sino da igreja, que ficava próxima à estação, anunciou cinco horas. Tive vontade de voltar-me e pegar o ônibus naquele momento, chegaria horário certo em casa para poder falar: “tchau, família” – porém algo me segurou.
As lágrimas não paravam de cair quando, na Sé, fiz a baldeação para a linha Norte-Sul. Senti-me muito constrangido ao reparar que uma mulher percebeu que eu chorava e desde então não tirou os olhos de mim – não gosto da sensação de estar sendo vigiado! – deixei para lá, mas só tive alívio quando, na estação Ana Rosa, essa moça desceu, perdendo-me de vista. Uma coisa que não perdi foi o pranto, esse não cessou um único segundo. Desci algumas estações depois, Santa Cruz. Peguei um ônibus e em dez minutos cheguei ao meu local de destino.
A recepcionista da contabilidade onde eu fui recebeu-me com um sorriso enorme e encantador. Não foi o suficiente, ainda precisava mandar muita água para fora dos meus olhos. Com toda educação e habilidade, a jovem resolveu “meu problema” com menos de três minutos, concluindo que era algo tão simples que poderia ter sido resolvido por telefone. Quase explodindo de raiva, agradeci, despedi da primeira pessoa que havia me dado um sorriso aquele mês – estávamos no dia 13 – e saí, tentando em vão segurar as lágrimas.
Quando cheguei ao ponto de ônibus, o único que me serviria já estava saindo e não me esperou. Por longos trinta minutos, aguardei a vinda do próximo. Na estação, recebi a notícia de que alguém havia deixado cair algo na linha e, portanto, todos os veículos ficariam parados por tempo indeterminado. Como não poderia fazer outra coisa, esperei por cinco minutos. Quando tudo voltou ao normal e o metrô que eu aguardava apareceu, entrei calmamente e sentei-me num dos lugares vagos, que estranhamente, para o horário, eram muitos.
Estava vendo a porta se fechar na estação Ana Rosa. Naquele momento todos os lugares já estavam ocupados, menos ao meu lado, talvez porque eu os tenha espantado com o meu choro; quando vi uma senhora, que aparentava uns cinqüenta anos, correndo e dois homens segurando a porta para que ela entrasse. Sentou-se ao meu lado. Por curiosidade olhei para o lado e percebi que era o mesmo olhar que havia me perseguido anteriormente no caminho de ida – por coincidência (ou desespero) ainda estava chorando com a mesma intensidade que ela havia me visto pela primeira vez.
Fiquei calado, mas ela não parecia querer o mesmo. Começou a puxar assunto e aquilo não me agradava. Foi falando, e falando, e falando... Enquanto eu permanecia mudo. Porém a voz dela começou a me interessar. E o assunto me atingia diretamente: Solidão. Ela falava sobre solidão. E naquele momento tive a certeza de que o quê estava sentindo não era dor, não era raiva, não era ódio... não era nada, a não ser solidão. Uma solidão desesperadora que devorava meus sentidos, matava-me por dentro, corroia meu ser... uma solidão que espero nunca mais sofrer.
Desculpei-me pela falta de atenção, pedindo que repetisse seu nome para mim. Levantou seus olhos para a placa com o nome das estações – acompanhei esse olhar – e respondeu-me de modo que a princípio achei seco e ignorante, mas depois percebi que não se tratava disso, e sim, que afinal, o nome dela não era importante e sim o que ela iria fazer com a minha vida em alguns minutos.
Ana. Seu nome era Ana - estranhei o fato de ela procurar uma identificação num letreiro de metrô, mas lembrei-me da estação Ana Rosa e imaginei que ela quisesse me mostrar esse pequeno detalhe. E, assim que respondeu seu nome, sentiu-se à vontade para continuar o diálogo. E como eu não tinha mais nada a perder...
Contei minha história, chorei, desabafei tudo que estava sentindo, para uma mulher com quem conversava pela primeira vez na vida – me senti um louco – e mesmo com o obstáculo dela também não me conhecer, foi a única pessoa que me ofereceu o ombro para chorar. Como retribuição também ouvi a sua história, ao final da qual me senti envergonhado por chorar. Minha história aos pés da dela poderia virar um filme de comédia. O mais incrível é que ela não demonstrava no rosto a dor do coração.
Aquela mulher tinha vinte e sete anos a mais do que imaginei – pelo menos um fato positivo – logo ela estava com 77 anos.
Dois anos antes desse encontro, sua filha, única filha, morrera junto com o marido num acidente de carro, deixando para Ana a criação de sua única neta, de 13 anos. Moravam em Santa Catarina nessa época, mas a neta dessa sofrida senhora não queria mais ficar lá, fugindo para São Paulo – onde encontrei Ana – e abandonando sua avó.
Alguns amigos de Ana convenceram-na de que sua neta saberia se virar sozinha em São Paulo “afinal, todos sabem!”. Levaram-na para uma praia com a intenção de esfriar um pouco a cabeça. Depois que voltou da praia durante um longo tempo passou por um mal-estar, foi ao médico que diagnosticou uma “simples” insolação. Como nunca melhorava, um ano depois, procurou novo médico e descobriu que estava com câncer de pele. No mesmo dia decidiu mudar-se para São Paulo para encontrar a neta. Nessa procura incessante de, bairro em bairro, rua em rua, casa em casa... nos encontramos.
Estávamos na estação Tucuruvi, quando notei que não fiz a baldeação na Sé para voltar para casa. Descemos juntos, ela me passou seu telefone, abraçou-me e falou uma frase que nunca esquecerei:
“Levando em conta que por hoje não procurarei mais minha neta, tenho apenas vinte e nove dias para encontrá-la”.
“Por que apenas vinte e nove?”
“Essa é minha expectativa de vida!”
Fiquei em silêncio e ouvi uma última coisa dela:
“Tudo que aconteceu em minha vida foi por uma decisão errada. Nossas vidas estão em nossas mãos”.
Entendi perfeitamente o que ela quis dizer. No dia seguinte, pedi demissão e comprei uma passagem para acidade onde minha família fora morar. Quando cheguei à primeira coisa que me passou pela cabeça foi ligar para Ana. Mas ao fazer isso recebi uma resposta eletrônica:
“Esse número não existe...”
Naquele momento descobri uma coisa: um anjo passou pela minha vida!
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