sexta-feira, 5 de agosto de 2011
O Cigano
Na adolescência, assim como a maior parte das pessoas, tive meu primeiro contato com a literatura. O que me fez diferente é que me arrisquei a desbravar seus caminhos – parafraseando Robert Frost, segui a estrada pela qual poucos andaram. Contudo, nesse relato, o que esse fato só é importante para justificar quem sou hoje, pois a história que venho contar não é bem sobre a arte da escrita.
Hoje sou professor – a profissão que mais se aproximava dos meus sonhos da juventude era a licenciatura em Letras – e graças a isso tenho a possibilidade de conhecer os tipos mais diversificados de pessoas – e aprendo muito sobre o mundo com elas.
Lembro da vez que um senhor de 77 anos matriculou-se para minhas aulas – já havia trabalhado com pessoas mais velhas antes, mas ele era diferente – o Senhor Antônio era um cigano, aliás, todos só o chamavam assim e acho que ele nunca se importou – tinha muito orgulho de ser a quem era.
Ele era sempre o primeiro aluno a chegar, e eu gostava disso, pois ele sentava-se num banco próximo a mim e começava a contar histórias, confesso até que ria de algumas depois, porém a maioria, quer eu quisesse ou não, ficava martelando em minha cabeça. Aquele senhor era muito inteligente, contudo ignorava aquele fato – acreditava que por ser a primeira vez a frequentar uma sala de aula não tinha nenhum conhecimento.
Os dias, e as aulas, foram se passando dessa maneira: antes do horário eu e os outros professores ficávamos ansiosos com a chegada do cigano, ele havia nos cativado, assim como a Raposa do “Pequeno Príncipe” havia ensinado.
No último dia de aula, não foi diferente, ele, já formado, foi o primeiro a chegar, sentou, conversou, contou histórias... nada mudara no seu jeito de ser, ele era o mesmo velhinho simpático de quando falou-me “boa-noite” pela primeira vez.
Entretanto, no momento da entrega dos diplomas pude perceber que algo se renovara – o brilho dos olhos!
Ao entregar o seu canudo pude ver algumas lágrimas escorrendo de seus olhos – ele não as escondeu, deixou rolarem sem medo de parecer sentimental –, abraçou-me e, em poucos palavras, me agradeceu pelos ensinamentos. Mal sabe ele que quem mais aprendeu nas aulas que ele estava presente fui eu!
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