quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Por um último sorriso seu


1 – À primeira vista

Era um domingo quente quando vi o sorriso dela pela primeira vez. Porém ainda não sabia que era o sorriso pelo qual eu faria loucuras para ver novamente. Para ser sincero, meu jeito fechado de ser impediu que eu apreciasse sorrisos, mas aquele me cativou de um modo inexplicável. Formulei todas as possibilidades existentes para justificar o encanto que os belos dentes brancos daquela mulher me enfeitiçaram – primeiro quis acreditar que só aconteceu por que eu estava em um momento sensível pela perda de meu irmão, mesmo que eu e ele não fossemos muito ligados; depois imaginei que era minha veia artística saltando diante da visão de algo belo; cheguei até a imaginar que era apenas um ciúme ridículo por eu não saber sorrir daquela maneira.

Contudo, com o passar do tempo notei que aquela fixação não tinha relação alguma com o momento que eu vivia, pois não consegui esquecer nem os lábios e nem os dentes de uma mulher que eu nem sequer conhecia; descartei também a ideia de que fosse apenas uma admiração artística por que assim que cheguei em casa peguei a tinta e o pincel e tentei reproduzir o rosto – principalmente – o sorriso que eu tinha visto... Aproximei-me muito da imagem original logo na primeira tentativa, mesmo assim repeti o tema em diversas outras telas; por último, tentei em minha face reproduzir aquele sorriso – foi a tarefa mais difícil, justamente por que sorrir não era o meu forte, porém com um pouco de treino nada é impossível.

Assim sendo, o resultado não me deixou feliz. Eu estava encantado, talvez até apaixonado, por uma mulher que nunca conheci, simplesmente por que ela possuía uma alegria ímpar expressa em seu rosto. Quando achei que iria enlouquecer recebi a “feliz” notícia de que teria um compromisso social. E eu sempre odiei qualquer envolvimento com pessoas, no entanto, como artista eu precisava mostrar-me de vez em quando para não aumentar ainda mais a minha má fama de casmurro.

2 – O coquetel

Coloquei minha mais falsa máscara de felicidade e fui ao compromisso. Encontrei muitos bajuladores – a quem tive de me mostrar simpático – e, também, alguns amigos. Eles comentaram sobre eu ter emagrecido e apresentar uma aparência mais pálida. Isso me deixou preocupado, já que mesmo sendo amigos, eles ainda não sabiam de minha doença. Aquele foi um bom alerta para eu saber que estava na hora de começar a disfarçar os sintomas.

Estava pronto para ir embora e dedicar-me a esse novo problema quando vi novamente o sorriso brilhante daquela mulher desconhecida. Num impulso incomum para mim fui até onde ela estava, se não fosse notado, ao menos teria mais um motivo para me inspirar caso visse mais de perto seu sorriso. Notei que um amigo estava entre as pessoas com quem ela conversava, foi a desculpa que eu usei para me aproximar.

– Será que um dia vou me acostumar com esses coquetéis, Lúcio?
– Pergunta difícil de responder, Bruno! Você passa tanto tempo trancado em casa que está até pálido.

Preocupei por mais uma vez alguém falar sobre minha aparência, mas pela primeira vez eu queria estar junto com pessoas, ou pelo menos com aquela pessoa que eu estava doido para conhecer que abandonei a ideia de ir embora.

– Realmente preciso de um pouco mais de sol... se ele me fizer sorrir como a moça aqui, talvez seja até bom!
Ela sorriu, consegui o que queria. E ainda conseguimos trocar algumas palavras:
– Pelo visto, o que falam de você é mentira!
– O que falam sobre mim?
– Ah... – falou em meio a um sorriso constrangedor, como se estivesse com medo de minha reação – nunca ouviu, ou leu sobre seu apelido?

Fiz uma cara de desentendido, embora soubesse muito bem qual era o apelido:

– Bruno Santana, o dom Casmurro da atualidade! – antes que nos pronunciássemos, Lúcio interveio – posso te garantir que não foi a Amanda quem criou o apelido, Bruno.
– Por que teria sido ela?
– Ela trabalha para o jornal responsável pela publicação!
– E nem tentou me defender?
– Na verdade eu consegui uma vaga lá há pouco tempo. Mês passado, para ser mais exata! Recebi a notícia em pleno domingo!
– Ah... era por isso que você estava sorrindo, então?!
– Como?

Eu já tinha falado demais, não poderia voltar atrás. Tentei disfarçar, mas tudo deixava claro que eu tinha reparado nela aquele dia e desde então não pensava em outra coisa:

– Achei bonito seu sorriso, apenas fiquei instigado. Nada de extraordinário!
Na verdade era totalmente extraordinário, eu não era do tipo de pessoa que mantinha uma ideia fixa, nem me apaixonava – apesar de ser jovem e talentoso, minha última namorada me deixou dois anos antes de eu ver aquele sorriso encantador capaz de quebrar o gelo da minha personalidade.

3 – Encontros – certos e incertos!

Consegui aproximar-se da moça de belo sorriso. Apaixonei-me. Imaginei que aquilo pudesse mudar meu jeito de ser, e realmente mudou, mas eu não podia deixar que ela se apaixonasse por mim. Isso não tem nenhuma relação com amor platônico, eu apenas sabia que não podia oferecer um amor completo da maneira que uma mulher merece. Tentei evitá-la, no entanto o destino sempre encontrava um modo de arrumar encontros casuais: uma exposição de artes; um coquetel – como aquele primeiro; um encontro na padaria; uma trombada na rua... sempre com aquele sorriso encantador no rosto! – consegui impedir qualquer envolvimento mais sério em todos esses momentos. Por muitas vezes nos vimos aos beijos sem razão, e eu sempre esquivava, não seria justo com ela levar um amor como o dela mais a sério.

Porém tudo mudou quando o editor-chefe do jornal em que ela trabalhava a escalou para uma entrevista com os pintores em exposição numa galeria famosa e eu era um dos nomes mais comentados. Assim que recebeu a notícia ela me ligou entusiasmada para marcar uma conversa, dessa vez não seria casual, e encontros desse tipo nunca são simplesmente conversas quando se está apaixonado:

– Oi Bruno. Tudo bem? É a Amanda! – Dava para perceber que ela estava feliz por falar comigo, era como se eu visse o seu sorriso!
– Oi Amanda... tudo bem? Há quanto tempo, né?!
– Até parece que esquecemos um do outro – dessa vez ela riu de um modo que não pude só imaginar, consegui ouvir, e prosseguiu com voz suava – como se isso fosse possível, né?!

Tentei desviar o assunto e isso a deixou um pouco triste, não sei como me controlei para manter a aparência – queria pedir desculpas, pois não suportava saber que ela não estava sorrindo, porém, pelo bem dela, mantive minha postura!

– Ando meio ocupado! Sem tempo pra nada!
– Nem para mim? Quero dizer, para uma amiga como eu?
– Estou com um projeto um pouco trabalhoso.
– Imagino! Não nos vemos há três meses, só trocamos mensagens ou eu te telefono! – fez-se um silêncio insuportável entre nós – mas te liguei por outro motivo: trabalho! O jornal fará uma matéria sobre a exposição. Estou com a missão de entrevistar o Casmurro do século XXI. – Senti seu sorriso mais uma vez, o que me fez ceder um pouco.

– Sabe que nem chego perto dele! Só você sabe que não sou tão casmurro assim!
O silêncio que se fez dessa vez foi diferente. Eu sabia que ela estava feliz. Tinha certeza de meu amor por ela, mesmo não o tendo vivido completamente! Pelo que conheço dela, posso afirmar que ela deu um sorriso, respirou fundo e só então continuou:
– Então... podemos marcar uma data? E um local também, né?! De preferência em seu ateliê.
– Lá não – respondi rispidamente – aquilo está cheio de telas, uma bagunça!
– Ou seja, o lugar perfeito para as fotos! Que dia posso te encontrar lá?
– Lá não, aqui, estou aqui agora! Pra quando sua matéria tem que ficar pronta? Vou ver um dia então.
– Pra que marcar? Chego ai em meia hora, nunca entrei ai, mais sei onde é. Beijos, tchau!

4 – O ateliê

Com uma pontualidade britânica, Amanda chegou a meu ateliê a tempo de me ver cobrindo algumas telas. Normalmente ela respeitaria minha privacidade e faria fotos apenas com o que estivesse à sua vista, no entanto ela viu se rosto no quadro que eu acabara de esconder. Olhou para mim fixamente e sem sorrir criticou minha palidez e minha magreza. Passou a mão em meu rosto e carinhosamente afirmou que eu precisava comer, senão ficaria doente – mal sabia ela que não estava sadio há muito tempo.

Descobriu o último painel que eu havia escondido e viu claramente seu sorriso. Foi a primeira vez que eu a vi chorar, e eu sabia que era de felicidade. Em silêncio ela foi retirando o pano preto de cada quadro oculto. Eu permanecia imóvel. Diante de toda nova descoberta o que mudava era sua expressão, tanto no rosto real, quanto nos que eu desenhei. Eu não sabia o que dizer diante daquela cena. Estava estático, não conseguia reconhecer se sua expressão era boa ou não. Eu não conseguia ver seu sorriso – era uma maldade dela não mostrá-lo pra mim quando eu precisava!

Não durou muito pouco o inverno ao qual ela me relegou, aproximou-se de mim e beijou-me como se fosse nosso primeiro beijo:

– Se você me ama tanto por que faz questão de se afastar? Me ajuda a te entender! – nesse momento me abraçou forte e eu não soube o que fazer. Meu desejo falou mais alto e ali, pela primeira vez nos unimos definitivamente em corpo! Só Deus sabe o quanto tentei evitar que aquilo acontecesse, porém não fui forte. No momento em que a amei de verdade, comecei a perdê-la.

5 – A doença

Naquele mesmo dia, após a entrevista, após o ato consumado, após a loucura feita, tentamos ter uma conversa franca, acho que foi uma das poucas que tive em toda a minha vida!

– Quando será a exposição com o meu rosto!
– Não é seu rosto! É seu sorriso! – ela soltou uma gargalhada tão deliciosa que não fui capaz de mostrar meu ar de decepção com tudo que estava acontecendo.
– Eu sempre soube que ele te aproximou de mim!
– Isso nunca devia ter acontecido, eu deveria ter me mantido como casmurro!
– Está arrependido? – ela me questionou como se realmente estivesse com dúvida, apesar de saber que eu estava evitando o momento sempre que podia.
– Preciso te contar uma coisa!... Ainda não sei como! – ela podia perceber em meus movimentos, em minha voz trêmula e até em meus olhos marejados que eu não estava preparado para aquilo, contudo era uma grande mulher, não me deixaria sem chão!
– Você não precisa me contar nada que eu já saiba! – a resposta me fez tremer desesperadamente. Fiquei mais pálido do que eu já estava. Não sei como não surtei, só sei que precisava entender os motivos dela.
– Do que você está falando, Amanda?
– Da sua doença! Eu sempre soube... na verdade, no dia que te conheci apenas percebi que você não estava bem, porém, com o tempo, não foi difícil descobrir o que se passava com você!
– Amanda? Se você sabia, por que deixou acontecer o que acontecer hoje?
– Eu não sei. Mas acho que foi um impulso. Te amo tanto que não pensei em mais nada na hora que descobri que você não estava me afastando, e sim me protegendo de você!... Fale o que você quiser, eu não me arrependo!

6 – A sentença – ou simplesmente laudo médico

Eu e Amanda assumimos publicamente nosso romance. A matéria feita por ela foi elogiada por muitos críticos especializados em arte e valorizou ainda mais minha obra. Passei de casmurro para pálido sorridente nas reportagens jornalísticas – mesmo que eu continuasse recluso por conta do meu mal –, mas o sorriso nunca foi real – eu apenas esperava calmamente pelo momento em que ela entraria pela porta de nossa casa trazendo a notícia, confirmando sofrer do mesmo mal que eu!... Ainda me arrependo dos pequenos detalhes que deixamos passar naquele dia... O amor afinal não é tão simples!
É claro que depois da primeira vez que nos amamos, soubemos nos cuidar melhor, a única falha foi o impulso do primeiro dia. Um erro pelo qual pagaríamos caro – ela mais do que eu, embora o sorriso no rosto mostrasse maior aflição e dor de minha parte do que da dela.

O laudo médico demorou para detectar o que nós já esperávamos. Torci para que o corpo dela aguentasse as pontas como o meu aguentou, que ela conseguisse fingir que estava bem como eu fazia, e nem me lembro mais como eu conseguia – era quase impossível. Acho que meu corpo foi mais forte que o dela, só isso, entretanto nunca conseguirei aceitar que eu a matei!

A doença tomou conta de Amanda rapidamente, ela não sorria mais, não tinha forças para isso. Pensei que ela estava somente esperando o anjo da morte vir buscá-la para que sorrisse no paraíso. E foi quando esta frase me veio à cabeça que lembrei-me de um quadro meu e de um pedido antigo dela – eu faria a “Exposição do rosto”, como ela disse, embora para mim fosse a “Exposição do sorriso”.

Não contatei nenhuma galeria, não convidei nenhum figurão das artes, nem imprensa, a não ser os amigos dela e os meus, entre eles, Lúcio, o culpado por me apresentá-la. Montei a mostra em minha própria casa, onde ela repousava e se tratava com os melhores médicos. Cobri todos os quadros com um pano preto e assim que ela pôde se colocar de pé, cada um dos convidados revelou um dos quadros, como ela fizera no dia de sua perdição.

Ela sorriu, e ainda viu a exposição ser visitada por mais uns dias, no entanto, minha amada não sorriu por muito tempo! O fim dela chegou durante uma das visitas de admiradores. Ela estava deitada, sorrindo, apenas sorrindo. Descobri que meu castigo por ter destruído a vida dela era permanecer em pé em quanto ela se desfazia como um botão de rosa, murcha, mas ainda bela e com um sorriso escondido em algumas de suas pétalas.

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