terça-feira, 10 de julho de 2012
Aquele lugar
O silêncio era tão ensurdecedor que eu não ouvia nada além das batidas do meu coração. Batidas desritmadas cuja agitação indicava claramente a minha agonia.
É tão estranho não ver ninguém - sempre tive todos aos meus pés, hoje eles não têm ao menos um chinelo velho que os descanse nesse solo ardente.
Gritos de aflição e dor iam tomando o lugar do frio silêncio; vozes em lamuriosa procissão entoavam uma famosa ladainha. Os caminhantes responsáveis pelas pelas preces, caminhavam para cima enquanto os outros iam para o lado de baixo.
Depois de alguns passos, vi surgir à minha frente um homem possuidor de um olhar penetrante, vestido em trapos. Ao aproximar-me mais pude perceber em suas retinas inquisidoras que ele estava pronto para me condenar.
Ouvi um abrir e fechar de portas, e assim que esse evento chegou ao fim vi formar-se uma fila em volta de tal homem. Novamente o silêncio tomou conta do lugar. ouvi um tamborilar, achei que era do meu coração, porem percebi que ele não estava sozinho: fazia parte de uma orquestra.
A fila andava a passos largos, então logo me vi frente a frente com aquele homem miserável e horrendo. Ele lançou-me um sorriso, algo entre o meigo e o irônico. levantou-se. Ouvi um novo abrir e fechar de portas.
Ao voltar trazia em suas mãos um enorme livro de capa preta. Abriu e começou a ler o volume. Escutei meu nome algumas vezes, sempre assenti com a cabeça a cada pergunta. Duas pessoas uniram-se a mim - uma do lado oposto à minha face e outra a minha direita, com as mãos em meu ombro.
Aquelas três personagens interagiam entre si sem permitir que meus lábios se movessem. Algumas horas se passaram sem que o tempo se consumisse, até que ouvi o som de um trovão. Todos se calaram e entreolharam-se.
O primeiro homem que apareceu aos meus olhos ergueu-se do seu assento, encarou-me com seriedade e disse uma única palavra, apontando uma das direções:
- Vai!
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