quinta-feira, 3 de maio de 2012
Na estação
Todos sabiam que o conflito havia acabado. Os “senhores da guerra” assinaram acordos e mais acordos de não agressão – talvez soubessem que não havia mais nada pra agredir a não ser uns ao outros, no entanto, isso eles nunca fariam, não eram burros o suficiente para ferirem a si mesmos!
O que sobrou não era só fome e destruição, era miséria, dor e principalmente dúvida – afinal como o povo que viveu na guerra sobreviveria. A morte era o único fim certo, e prevendo isso a maioria das pessoas tentava tomar suas providências para que a dor não fosse tão perceptiva.
O inverno era rigoroso, tudo o que a menina via era o branco. Talvez não sentisse frio, embora o vagão em que estava não fosse muito bem aquecido, porém a mãe sentia-se mal com a situação – o pai nem ao menos ousara embarcar, não teria forças para o que viria. A garota olhava pela janela os flocos de neve que caiam enquanto sua mãe, ao seu lado, segurava o pranto. O pai permanecera na solitária estação que ficara pra trás.
A pequena filha sorria ao ver todo aquele branco sem poder imaginar o que estava acontecendo. Via árvores com as copas todas cobertas por neve e ria da natureza – “será que Deus não sabe que o verde é mais bonito?!” – eram os olhos da criança que não compreendia a destruição que a guerra tinha causado ao seu redor.
O trem parava em todas as estações, poucas pessoas embarcavam, nenhuma descia, até que em uma, bem distante de onde deixaram o pai, ambas desembarcaram.
A filha tremeu de frio e procurou o colo da mãe que, não mais segurando o choro, recusou. Mais uma vez a garota procurou o afago de sua progenitora, dessa vez não nos braços, mas nos olhos – difícil era afirmar qual das duas tinha o olhar mais marejado, contudo, apenas a mais velha sabia o que iria acontecer.
A mulher olhou para todos os lados e quando finalmente encontrou o que procurava suspirou – entre um alívio e uma dor de não poder mais recuar. Foi até o homem que a esperava. Entregou a garota em suas mãos e só então explicou para a filha o que estava acontecendo:
– Filhinha, esse homem é seu tio, ele ficará com você por um tempo, enquanto mamãe e papai trabalham. Tudo bem? – a menina apenas consentiu com a cabeça e chorando abraçou a mãe.
Assim que retribuiu o gesto a mulher virou as costas na intenção de voltar para o marido e tentar ser feliz. Mas não conseguiu evitar ouvir o som do tiro. Pronto! Estava feito – a filha nunca mais passaria fome!
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