quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Caixão
Certa vez, ao fechar meus olhos senti que nunca mais os teria abertos novamente. Queria que fosse um sonho ruim, mas infelizmente descobri que não era. Estranhamente, percebi que apenas a visão me faltava, de resto ainda possuía todos os sentidos, contudo esse não era um fato que pudesse negar meu fim, pois eu ouvia vozes em tons quase mudos comentando sobre minha morte.
Eu pude sentir meu corpo nu, em todos os sentidos da palavra, porque eu sabia que ao mesmo tempo em que preparavam meu corpo para o velório, vozes diziam meu nome – vozes vivas – e elas podiam dizer mentiras que eu jamais provaria a farsa, e pior, diziam verdades, segredos que eu escondi, palavras que disparei – sem dó – contra pessoas inocentes. Eu estava sendo revisto, e isso me deu medo!
Novamente vestido – agora com meu melhor traje – senti-me falso, tentando mostrar-me aos meus convidados como alguém que eu não era no dia-a-dia. Deveria ter avisado minha família que eu preferia, e me sentiria mais confortável, sendo velado de bermuda, chinelo e camiseta, imaginei que se eu tivesse lágrimas choraria todas naquele momento – se ter que trabalhar de terno já era incômodo, não suportei a ideia de viver o resto da vida fantasiado com um.
À medida que as pessoas chegavam, eu me sentia cada vez mais grandioso, já que frente a frente com meu corpo ninguém teria a coragem de pronunciar uma só palavra contra mim – seria uma injúria – recebi os maiores elogios que um homem gostaria de escutar, pena que nenhum deles foi ouvido por mim em vida.
Fui deixando de lado a rasgação de seda para dedicar minha atenção ao pranto que parecia ser uníssono, apesar de vindos de cantos diferentes – à minha direita sabia que estavam meus amigos, minha família provavelmente se mantinha fixa na cabeceira de meu leito – sentia verdade em algumas lágrimas, outras, porém me faziam rir diante de tanta falsidade.
Contudo, a dor que mais me pesou foi perceber que o meu caixão estava sendo fechado. Pela última vez meu corpo sentiria a luz, o vento, os toques de outras pessoas... saber que o fim chegara definitivamente fazia meu pobre corpo falecido sentir medo, pois eu sabia que depois de lacrado, meu caixão brevemente deixaria de ser vistos por olhos felizes ou tristes, simplesmente passaria a ser um pedaço de madeira que um dia guardou um pedaço de vida.
Assim, a rotina seguiria seu ritmo, e meu nome cairia no esquecimento, e talvez finalmente, eu possa preocupar-me comigo apenas, e não mais com todos os olhos, ouvidos e bocas que me cercavam... quem sabe poderei até ser feliz!
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